Archive for Maio, 2008

Uma cena banal no Rio de hoje

Arthur da Távola


Quem viveu na Rocinha, na década de 70, talvez se lembre: dona Cacilda tinha um juramento: fazer o seu moleque doutor. Lutou, brigou, pediu, bateu, fez biscate. Mãe solteira decente, mas decidida, chegou a vender o corpo quando mais moça, chorou, gemeu, economizou, apanhou, de gigolô, costurou, mas o menino fez o primário, uniforme pobre.
Porém limpo.

Trabalhou em casa de família, costurou, lavou extra, fez doce, invadiu o terreno baldio e tirou o moleque de lá aos tapas para estudar, pediu ao patrão, cavou a bolsa, falou com o deputado, com o pastor da igreja, o padre, fez bolo pra batizado, passou roupa nas folgas, dormiu sentada vigiando-lhe o estudo, levou vaia da rapaziada, enfrentou duas namoradinhas, mas ele tirou o ginásio. Perto dos 40 anos, ela encontrou um companheiro pedreiro, decente, crente de igreja. Não saiu da Rocinha.
Ele foi pra lá. Participava da igreja, ajudou na economia, botou dim dim na caderneta, costurou pra fora, fez doce, inventou comidinha e vendia pra birosca. Deu plantão na porta de festa pro filho não vir dormir tarde. Deixou que rissem dela, que gozassem o rapaz, filhinho da mamãe. Rejeitou sair da Rocinha, o pedreiro tivera a chance de morar em Queimados numa casa boa, mas era longe e tinha o custo da passagem. Não dormia se o moleque não chegasse, deu-lhe tabefe já rapaz quando malandreava, mas ele fez o segundo grau completo.
Não passou no vestibular. Ela compreendeu e de novo não dormiu. Arranjou professor particular, costurou e cozinhou mais, roupa para si já não comprava, só consertava as velhas, ficou avarenta, zura, pão-duro, sovina, mas ele teve o professor e no outro ano passou no vestibular. Ficou seca, envelheceu rápido. Magrinha, agitada. Sua vida era trabalhar e esperar pelo filho, lutar e brigar por ele e com ele. Ao marido nem ligava, sexo, Ihh! Já tinha um tempão! Isso era bobagem de gente moça. As roupas sobravam, mais economia, pouca conversa raro riso muito siso, alguns pesadelos estranhos. Os dentes caindo. Cada vez menos dormia. Falta de apetite, casca de pão dormido com café amargo. A poupança para o anel de doutor, a roupa da formatura, o dia da formatura.

Num tiroteio entre quadrilha do Borel, onde o filho fora levar a noiva, a bala perdida matou um inocente: ele.
Estraçalhou-lhe o cérebro. Era noite de luar. Justamente a noite escolhida pela mãe para lhe entregar o anel de doutor, quando ele chegasse em casa.

Publicada em 28 de julho de 2007

Precisamos evitar que mais casos como esse aconteçam no nosso estado. Manifesto integral, por uma sociedade menos violenta.

__._,_.___

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Porque é assim que é…

Apesar dos esforços internacionais para reduzir a pobreza, a fome cresce no mundo, depois de ter diminuído durante a segunda metade da década de 90. Cerca de 850 milhões de pessoas passam fome a maioria delas na áfrica e na ásia. O número de desnutridos nos países em desenvolvimento cresce à razão de quase 5 milhões de pessoas por ano. Os dados são do relatório anual da FAO, a agência das Nações Unidas voltada para a agricultura e a alimentação, que está sendo divulgado hoje. O relatório, “O Estado da Insegurança Alimentar no Mundo”, apresenta um quadro desolador.
Há, no entanto, algumas boas notícias no relatório: 19 países conseguiram reduzir o número de famintos desde 1990-1992. Um total de 80 milhões de pessoas saiu da faixa dos desnutridos nesses países entre os quais o Brasil. “Essa lista inclui” diz o relatório “países grandes e relativamente prósperos, como o Brasil e a China, onde o nível de subnutrição já era moderado, e também países menores, onde a fome era maior, como o Chade, a Namíbia, Sri Lanka e a Guiné”. Bangladesh, Haiti e Moçambique estão entre os 22 países que conseguiram “reverter a maré de fome” na segunda metade dos anos 90.
O relatório cita entre os sinais positivos a promessa do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva de erradicar a fome antes do fim de seu mandato, daqui a pouco mais de três anos. Apesar disso, o levantamento da FAO indica um retrocesso na luta contra a fome nos cálculos mais recentes – feitos entre 1999 e 2000 -, o que torna cada vez mais remoto o objetivo da ONU de reduzir pela metade o número de desnutridos no mundo até 2015, diz o diretor-geral adjunto da FAO, Hartwig de Haen. “é preciso acelerar as reduções anuais a 26 milhões, mais de 12 vezes a taxa de 2,1 milhões alcançada durante os anos 90″, explicou.
A FAO afirmou que “é hora de os países descobrirem porque milhões de pessoas passam fome em um mundo que produz alimentos mais do que suficientes para cada homem, mulher e criança”. “Para sermos claros, o problema não é tanto da falta de alimentos, mas de falta de vontade política”, considerou a agência. Segundo a FAO, salvo quando a guerra e os desastres naturais atingem os países em desenvolvimento, “se fala pouco e se faz menos ainda” para aliviar o sofrimento de 798 milhões de pessoas que padecem de fome crônica nesses países. Esta cifra é superior à toda população da América Latina e da áfrica, informou a FAO. A esses números ainda se somam 11 milhões de famintos nos países desenvolvidos e 34 milhões nas nações em desenvolvimento.
A reunião sobre a fome realizada pela ONU em 1996 adotou a meta de reduzir o número de desnutridos pela metade até 2015. A reunião do Milênio, em setembro de 2000, colocou este objetivo no topo das prioridades globais. O número de famintos, que caiu 37 milhões na primeira metade dos anos 90, aumentou mais de 18 milhões, à razão de 4,5 milhões por ano, entre 1995 e 2001, no mundo em desenvolvimento. (AP)

Add comment Maio 2, 2008


 

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